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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A necessidade de companhia

Ás vezes penso que eu gostaria de não ter mais que bater sempre na mesma tecla, mas há assuntos que precisam ser constantemente retomados e repensados. Como é a questão da diferença entre ser sozinha e ser solitária... 

Ontem, voltando pra casa, ouvia uma música do Tiago Iorc e fiquei presa em um trecho da letra.

“E só o tempo, só pra descobrir
Se a liberdade é só solidão 
E só o tempo, só pra descobrir
O que vai ser” 
Liberdade ou Solidão - Tiago Iorc



Relembrei situações que me instigaram a escrever muito sobre o assunto, mas não havia escrito o bastante. Com o tempo, deixei pra lá... Mas não se pode, nunca, deixar “pra lá” o que insiste em sair da gente. Textos, crônicas, poesias insistem em sair de mim! Preciso continuar gritando a diferença entre ser sozinha e solitária! Parece que muita gente ainda não entendeu isso e surpreende-me que tais pensamentos venham de mulheres, e não de homens. 

Há uns meses, este ano, fui comemorar o aniversário de uma amiga de muito tempo. Sendo natural que, com o tempo, o nosso convívio constante tenha diminuído e o nosso círculo de amizades tenha mudado totalmente, fui sozinha. Com quem eu iria se não fosse só? Não tenho namorado nem sou casada. E não sou criança, para precisar ir acompanhada de um adulto. Eu sou a adulta da história. Portanto... 

Havia necessidade de que eu fosse, apenas, se tivesse uma companhia para ir comigo? Não! Primeiro que eu estava de carro, segundo que eu tinha dinheiro caso fosse voltar de táxi, terceiro que eu sei pedir carona quando preciso, e quarto – e mais importante – que eu sei ser sozinha. Eu SEI SER SOZINHA! Está claro isso ou precisa desenhar? 

Pois tem gente que nem se eu desenhar vai entender. 

O fato é que eu passei aquela tarde no aniversário do meu sobrinho, depois fui pra casa, tomei meu banho, me arrumei, ajeitei meu cabelo, cuidei das minhas unhas e fui linda ao aniversário da minha amiga. Linda não no sentido de beleza, mas linda no sentido de “eu estava segura de mim e da minha liberdade de ser quem sou”. Mas chegando lá... Senti-me deslocada de tudo e de todos por questões que não vêm ao caso agora, mas eu estava bem comigo mesma. Eu estava bem. Fiquei comendo, bebendo meu refrigerante e observando tudo o que acontecia ao meu redor: as conversas; as risadas; os olhares; os abraços; as danças; o que comiam e bebiam... Mas senti a necessidade de conversar com alguém. Se for pra estar em um local com outras pessoas, que seja pra conversar, e não pra me isolar. Não sou uma pedra. E solidão é isso, sentir-se só em meio a tanta gente. 

Levantei-me e fui puxar assunto com pessoas que eu conhecia. Logo perguntaram-me: 
- Veio com quem? 
- Com ninguém. 
- Ninguém? 
- Sim. Com ninguém. 
- Veio só? 
- Sim, vim só. 
- E cadê o namorado? 
- Eu não tenho namorado. 
- Ah. Uma menina tão bonita... – Por que todo mundo acha que beleza atrai relacionamentos? – E por que veio só? 
- Porque... Hum... É... – Fiquei pensando em como responder sem parecer grossa, mesmo com vontade de ser – Eu não tinha quem trazer. E acho que não havia necessidade. 
- E não tem medo? 
- Medo? De quê? 
- De sair só. 
- Eu não! Oxe! Não mesmo. – Não me aguentei, tive que rir disso. Foi até bom descontrair ao ser irritada por peguntas idiotas. – Medo de quê? 
- De sair só. É perigoso sair só. Vai voltar só? 
- Ah eu já estou MUITO acostumada com isso. Estou de carro. Saio só, volto só. Só deixo de sair se eu não quiser. E só vou embora quando quero. 
- Nossa! Parabéns. Mas já é muito tarde... 
- Eu sei! 
- E sua mãe? 
- Ah ela está bem, obrigada. - Fiz que não entendi o motivo da pergunta.
- Ela não fica preocupada não? 
- Ah, fica sim. Normal, né?! Ainda moro com ela. Assim como também me preocupo quando ela está fora. É normal. 
- Mas ela não reclama com você? Que coisa boa, né... 

Nesse momento tive que dar um jeito de sair do assunto, da conversa, da mesa em que estava. Porque a vontade era tirar a minha cara de simpatia e colocar a minha cara de irritação e falar o que venho a falar apenas agora, aqui, como um desabafo de milhares de mulheres adultas, solteiras, que ainda moram com os pais: 

- Eu já sou adulta! O fato de eu ainda morar com os meus pais é apenas uma fatalidade financeira vivenciada inclusive por pessoas da sua família. E, ainda que eu pudesse morar só, mas quisesse continuar morando com eles, ninguém tem nada com isso e isso não me faz ser menos adulta do que eu sou. O fato dos meus pais se preocuparem comigo é normal, primeiramente por serem meus pais, e depois por eu morar com eles, mas essa preocupação não deve me aprisionar física e emocionalmente como se eu fosse uma criança indefesa, porque não sou! Sou adulta o bastante para ter a liberdade de ir e vir, dentro das leis da sociedade, de onde, para onde e quando eu bem entender, acompanhada de quem eu bem quiser, OU NÃO, se eu não quiser. Eu tenho a liberdade inclusive de decidir se eu quero namorar agora, mês que vem, ano que vem, ou sei lá quando, desde que eu tenha com quem namorar, porque namorar sozinha é meio impossível, né?! E também se eu quiser nunca mais namorar, viver pra sempre solteira, ou se quiser namorar sem declarar isso a público, tenho o direito. Eu tenho o direito a tudo o que eu quiser, dentro das leis que regem a constituição federal e a minha convivência familiar. Eu tenho direito a decidir no que quero trabalhar, se futuramente vou querer ter filhos e quantos e, inclusive, o direito de vestir o que eu quiser, independente do horário. Mesmo que digam que é perigoso usar determinadas roupas em determinados horários... Acredito nisso e realmente procuro ter cuidado, mas tenho o direito de escolher SIM! Eu tenho direito de ser quem sou e fazer o que eu quero, falar o que eu quero, e estou cansada não apenas de pessoas como você, que acreditam que a mulher tem que estar sempre acompanhada, BEM ACOMPANHADA, para ser feliz e viver bem. Estou também cansada, talvez mais ainda, de pessoas que vivem como vivo, mas não exercem o direito de ser quem são como se devessem satisfações a seja lá quem for. Eu sou livre! E tenho o direito de escolher se o meu modo de viver é liberdade ou solidão. 

“Livre, era o que ela mais queria ser
Livre, pra ir e vir e ser o que quiser
Quando quiser e se quiser” 
Liberdade ou Solidão - Tiago Iorc

Sem mais. 
Gracias. 
Xêro da tia Lili pr'ocês :* 

--> Próximos textos seguindo o mesmo assunto: 
* Qual é o meu tipo?

24/08/2016


Um texto de Aline Menezes, criadora do Blog O Quarto de Aline

Um comentário:

  1. Às vezes a gente encontra solidão é no outro que não percebe o quanto está sozinho no meio de tanta gente...

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