DESEJADOS

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Ao jornalista do ônibus 321


Oi, moço do ônibus. Faz tempo que não posto em meu blog, mas hoje te vi escrevendo e, mesmo tímida que sou, ousei falar com você. Uma pena que a timidez me limitou a abrir a boca e iniciar assunto tarde demais, quando o ônibus já se aproximava do ponto em que eu iria descer.
Eu queria tanto ter conseguido ler aquilo que você escrevia em um papel de pauta azul com o cabeçalho da Amil. Eu queria tanto ter tido mais coragem de conversar com você e te contar que também escrevo e que fico encantada quando, na correria do dia a dia, vejo alguém lendo ou escrevendo em um ônibus. Eu queria tanto não ter tirado meus livros e marcadores da minha bolsa quando a arrumei ontem à noite... Mas nada aconteceu como eu de fato gostaria.
No entanto, jornalista lindo que escrevia no ônibus da linha 321, sinto-me feliz por ter conseguido, ao menos, te falar o nome do meu blog. Espero ansiosa a sua visita aqui em meu quarto de letras. Espero com tanta esperança que fiz esse texto pra você. E espero que me deixe um comentário com seu contato, que me envie e-mail, que me siga no Instagram ou outras redes sociais. Dá-me sinal de luz!



Um texto de Aline Menezes, criadora do Blog O quarto de Aline

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Fartar-me-ia

acumulo canecas na mesa
não vou perder tempo lavando
estou escrevendo, escrevendo
sonhando
a chuva cai
sobe o aroma de café
tenho frio, tenho fé
nua diante do computador
vestindo meias e um cobertor
unhas tão belas, um olhar encantador
o que me cobre é o amor
tenho sorriso de paixão
a pele ainda ardida
pelos suaves toques de tuas mãos
arrepia a imaginação
fartar-me-ia de ti se aqui tivesses
teria eu quem me fizesse
chegar ao céu de estrelas e alucinações
que é ter uma alma, um corpo, junto a mim
um frenesi sem fim

Uma poesia de Aline Menezes, criadora do Blog O quarto de Aline

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Super Lua

Vi o belo, vi a vida
Nem de praia precisou
Só de um quintal
Ou um sinal fechado
Não tinha tanto vento
Estava calor. Bem calor

E depois ficou mais calor ainda
E um coração aberto
A gente perto
E o calor por dentro
Os olhares, as palavras
O silêncio

O abraço, o amasso
Esqueci o tempo
Vou agora dormir
Com teu beijo me ardendo

Uma poesia de Aline Menezes, criadora do Blog O quarto de Aline

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Globo estrelado

Dia poético tive eu
Fui de encontro à felicidade
E ela abriu os braços para mim
Está em completo êxtase meu ser

Ah que abraço foi este
Felicidade...?!
As mãos, os toques
O vai e vem
O beija não beija também

O teto parecia um globo estrelado
e o cantor clamava a alegria do povo

“você não tem que sentar como uma mocinha”
disse-me eu.
“você tem que sentar como quem tá feliz”
E vi meninas de vestidos rodados jogadas pelo chão

o jeito de o cantor dedilhar o violão
o fotógrafo alinhando a câmera àquilo que merecia ser fotografado
tudo parecia merecedor de um clique e das minhas anotações

até que um sorriso mirou no meu
até que eu me mirei em mim e na felicidade que eu sentia
fotografar-me-ia se eu pudesse
e se eu quisesse
um registro físico de tantas emoções


Uma poesia de Aline Menezes, criadora do Blog O Quarto de Aline

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A parada errada e o perfume de estudantes

Já estou na faculdade e a minha mente está em movimento frenético. Impossível competir com sua velocidade, mas não me custa tentar. Custa?
Talvez custe muito, pois o teclado não ajuda. Faz barulho e incomoda quem por perto está. E incomoda a mim, que não gosto de incomodar. A cadeira é muito boa, mas também não me favorece. Por Deus! Por que é tão difícil encontrar, fora de casa, um bom lugar para escrever?
Mas a danada da inspiração só quer me vir quando estou pela rua, sobretudo de ônibus, que é, para mim, o melhor lugar para pensar. Minha família não gosta de jeito nenhum quando eu não saio de carro, mas o que eu posso fazer se nasci escritora? Deixar de andar de ônibus é, para mim, como ser um Auxiliar Administrativo que não vai ao escritório. Ou como um agricultor que não visita outras terras. E foram muitos pensamentos para hoje. Não recordo o dia que eu pensei tanto, tanto, e numa velocidade tão forte e intensa como nessa tarde quase noite. 
Eu comecei pensando no que já vinha pensando antes de sair de casa. E desses pensamentos não falarei agora. Outrora você, leitor, reconhecerá tais pensamentos noutros textos. Ou não. Enfim. Eu comecei pensando no quão maravilhoso foi o dia, que não foi tão maravilhoso, mas que me fez passar o hidrocor em todas as atividades que me comprometi comigo mesma que eu realizaria antes das 17hs. Eu consegui, então poderia dizer que o dia foi maravilhoso, dado vista o quão raro é de isso acontecer. No entanto, pensei nos atrasos de poucos minutos causados por não encontrar meu cartão de passagem, por não conseguir fazer uma ligação e por ter de passar na padaria para pagar o pão que meu pai comprou mais cedo. 
Cheguei ao ponto de ônibus e já escurecia. Não foi assim que planejei. Será que o ônibus demoraria? Que viria lotado e eu não teria onde sentar para ler Clarice Lispector? Chegou e veio vazio. Sentei no lugar mais apertado, mas tudo bem. Agarrei-me ao livro e adentrei nos escritos de tal forma que vez ou outra, ao olhar para fora da janela, assustava-me com a possibilidade de já ter passado, e muito, da parada que eu desceria. Mas não passava. Não passava. Nem perto estava. Mas eu adentrava nos escritos e de tempo em tempo pegava-me assustada com o que acontecia fora; do livro, do ônibus e de mim. Tentei relaxar e notei que me excedi no relaxamento. Tentei prestar atenção ao momento de descer e, logo, logo, eu desceria.
Foi num pulo que certamente o rapaz bonito que estava na fila de descida estranhou. Como que alguém consegue descer do ônibus ainda com os olhos cravados no livro? Só eu, meu Deus, para conseguir tal coisa? E fiquei grata por isso. Por conseguir sair do ônibus sem perder uma vírgula da minha leitura. Mas, calma. Desci na parada errada. Tanta agonia e tentativas de ter atenção... Se eu pelo menos houvesse descido uma parada depois, mas não. Desci uma antes. 
E me culpei por isso. Martelei meu juízo com isso. Não apenas teria que andar mais, mas, o principal, é que por mais tempo ficaria sem acessar o livro. E eu queria lê-lo por demais. Degustar cada fragmento de texto. Clarice quando me toma me rende. E eu estava presa. Eu estava presa e solta por aí, a andar pela Boa Vista em passos apressados como se a calçada por onde eu passava tivesse dentro da minha cabeça, e não abaixo dos meus pés. 
Até que, uma visão me parou. Um cheiro me preencheu. Meus pensamentos saíram do livro, que passeava em minhas mãos, e foram ao encontro da avenida e seus encantos. 
Vi um rapaz com piercing no rosto e cabelo amarelo. Praticamente idêntico ao Alex (Miles Heizer) da série 13 Reasons Why. Deu-me forte vontade de abraçá-lo, de eu ser adolescente de novo. Logo depois vi uma lanchonete de coxinhas. Que vontade de comer! Pensei no sanduíche que meu pai preparou enquanto eu me banhava para sair.
Meus passos tão ágeis não chegavam nem perto dos meus pensamentos. Eu diria que foi esse o momento exato que me fez escrever esse relato. Foi aí, bem nesse momento, que eu andava rápido e leve como uma pena que voa que decidi escrever isso aqui. Um cheiro me paralisou como quem coloca a cena em câmera lenta. Perfumes de estudantes, foi o que anotei no bloquinho da minha mente para depois eu me lembrar. E das pipocas, complementei. Logo depois veio o rapaz com cabelo em corte moicano e topete, parecendo um mistura de Júnior Lima e Elvis Presley. Eu queria lembrar com exatidão o que foi que pensei depois dessa cena... Sei que nesse momento adentrei o estacionamento da faculdade e senti a leveza da segurança que é não estar tão vulnerável à violência da rua. Sempre sinto isso quando chego.
E nesse misto de sentidos – cheiros e visões – e pensamentos, e paz, e tudo, notei uma mulher caminhando apressada ao meu lado. Suas passadas combinavam com as minhas, mas não nos conhecíamos. Estávamos juntas, mas sozinhas. Porém, de fato, nós nunca estamos sós se a nossa cabeça está em nosso corpo. Se a mente nos acompanha, para o bem ou, inevitavelmente, para o mal. 
Eu precisava chegar logo. Eu precisava chegar urgentemente e transferir para o papel ou para a tela tudo isso que vos conto. E quase me atropelo em mim mesma e nos meus pensamentos. E ia mesmo ser um atropelamento. Eu ia perder a parada do ônibus, quem dirá a passada dos pés. Calçava um tênis de corrida, de praticar exercícios. Não conseguia frear nem a pau.


Um texto de Aline Menezes, criadora do Blog O Quarto de Aline

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