Top Postagens

domingo, 21 de agosto de 2016

Eu posso ressuscitar pessoas

Eu descobri que com o meu dom das palavras tenho poderes mágicos. Tenho o poder de escrever sobre saudade de tal modo a senti-la cortar a alma ainda mais do que corta quando sinto-a antes que, em palavras, se traduza o intraduzível. 

Há dias a saudade que sinto tem sido extrema, além do anteriormente imaginável suportar. Talvez eu não esteja mais aguentando... Dói não ter mais por perto o passado e quem fez parte dele. Dói não ter mais a oportunidade de reviver o que vivi e de viver o que não me permiti viver ao lado de pessoas que partiram para a eternidade. Dói, mas eu tenho dons. E entre tantos, tenho o dom de eternizar o que não foi eterno, mas que, contraditoriamente, estará eternamente em minha mente e coração. 

Eu posso ressuscitar pessoas!!!!

Eu sou alguém extremamente emotiva e apaixonante, mas com uma dificuldade enorme de expressar alguns sentimentos com relação a algumas pessoas. De modo que quando falo de saudade, imagina-se que falo de um alguém que foi amorosamente especial, alguém que eu tenha almejado viver uma história de amor.

Não tenho saudade de uma história de amor que não vivi. Tenho saudades de pessoas. Sinto FALTA! De pessoas que, acho, muitos dos que convivem comigo não imaginam o quanto sinto. Mas sinto exorbitantemente. 

Sinto falta. Falta que sufoca e que me grita: "VOCÊ PODE RESSUSCITAR PESSOAS!" Então eu descobri, com esse sufocar, que o meu alívio se dará quando eu escrever as tais histórias. As vividas e, principalmente, as não vividas.

Sinto falta da minha avó paterna. Das vezes que a vi caminhar no corredor externo de sua casa, fazendo suas orações. Sinto mais falta das vezes que eu NÃO disse: "te amo, vovó." E das vezes que eu não penteei seus finos fios de cabelo grisalho. Sinto falta do barulho que fazia o arrastar da sua sandália quando caminhava da cozinha até a sala. Sinto mais falta das vezes que eu NÃO disse: "vovó, vamos caminhar comigo? vovó, quero passear com a senhora." 

Sinto falta dos meus tios que já se foram. Das vezes que brincavam comigo e me faziam rir descontroladamente. Sinto mais falta dos abraços que NÃO dei, das palavras bonitas que NÃO falei. Sinto muita falta.

Sinto falta dos meus padrinhos. Das vezes que ia visitá-los e ganhava muitos pompons de cabelo que madrinha costurava pra mim, e bombons que padrinho comprava pra me agradar. Sinto falta da ânsia que sentia quando acabava Agosto e eu tinha certeza que no 7 de Setembro eu iria visitá-los, na Boa Vista, enquanto via o desfile passar. Sinto mais falta das vezes que eu NÃO fui, podendo ou não, independente do motivo de não ter ido. Setembro mudou o sentido depois que cresci. Sinto não ter tido coragem de dizer ao meu padrinho o quanto ele me fazia falta, por não termos sido tão presente na vida um do outro, diante das coisas da vida.

Sinto falta dos meus primos. Sinto falta das viagens nas férias e dos momentos maravilhosos em São Caitano e Caruaru. Sinto mais falta das vezes que eu disse: "Vou!", mas NÃO fui. Sinto mais falta do que adiei como se eu tivesse tanta certeza do amanhã... Tão incerto amanhã!

E sinto falta de momentos e sentimentos vividos com pessoas que ainda vivem, mas que a frieza da vida adulta me enche de orgulho e, as vezes, até, um pouco de soberba. Eu, tão calorosa, tão emotiva e apaixonante, tão poeta, sou humana. Tão quente, sou fria. Tão cheia, vazia.

E ao mesmo tempo transbordante. E ao mesmo tempo congelante num gelo que queima num sentido inverso dentro do meu ser. Tão estranho e difícil descrever...

Nunca deixe pra amanhã. Se ama hoje, ame hoje; viva hoje; diga hoje; ligue hoje; e envie cartas, mesmo que essas demorem pra ir pra voltar. Escreva cartas. Elas falam mais do coração enquanto as mensagens da vida tecnológica têm um "Q" de banais.

Viaje. De preferência não para conhecer locais, mas para reencontrar pessoas. É delas que sentirá falta no futuro. O lugar é só um detalhe.

Não guarde mágoa, nem de si mesmo e do que tem colhido no presente. Peça perdão, perdoe e perdoe-SE. 

Não lamente o que não deu certo. Geralmente nem tudo dá, mas tudo que vivemos há um porquê e nos mostra alguma lição. 

Não acredite piamente nos livros de auto-ajuda. Não vão mudar a sua vida se você não tomar alguma atitude. Feche o livro e abra as asas. Voe.

E siga voando, mas parando constantemente para tomar fôlego e pegar impulso. É nesse momento que você vai abraçar, amar. No fim, a gente não é o que conseguiu comprar e ter. A gente é o que conseguiu SER, VIVER, APRENDER e DAR. Então não viva de dar desculpas pra tudo. Analise sua vida e não deixe pra depois aquilo que depois não dará pra ter de volta.

Sinto falta, mas passou. Mais ficou.

19/08/2016

Um texto de Aline Menezes, criadora do Blog O Quarto de Aline

Nenhum comentário:

Postar um comentário