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terça-feira, 13 de março de 2018

É assim que as coisas são


É assim que as coisas começam a desandar em tudo e para todos os lados. Um adeus nunca dado, um abraço nunca oferecido, dias que passam como raios e os trovões fazem as bases tremerem. Qual foi a última vez que abraçou alguém? 

Pare de chorar, é assim que as coisas são. Sempre foram e sempre serão. Você para e pensa nas pessoas e elas nunca serão o que você imagina. É um sinal dos tempos. Apresento-lhe à vida. Diga oi para ela, mas se não quiser não sorria. Sorrisos não precisam ser usados para impressões. Eles são reflexos da sua alma. 

Se um estranho oferecer uma rosa, segure com cuidado. Espinhos pequenos às vezes se escondem na beleza de uma boa ação. Não jogue fora. Guarde. Hora ou outra você vai lembrar que, mesmo em suspeita, alguém te observou e te escolheu. 

Sabe? Com o tempo você se acostuma com o belo e o feio. Eles sempre andam lado a lado. Os dias passam e o abstrato se torna caricato. Tudo tem dois extremos. Acostume-se com idas e vindas, encontros e desencontros, amores e ilusões. 

Desse jeito as coisas começam a normalizar. Não a condição do mundo, mas o costume que se faz presente. O feio é atraente, mas o belo se torna notável sem que realmente chame atenção. 

Pare de chorar, é assim que o mundo é. Em vez disso, sorria e abrace quem ama como se fosse a última vez. Sem chamar atenção. Afinal, é notável a modéstia que dá beleza à vida.



Um texto do jovem escritor paraense Daniel Pantoja

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Tic-tac


DE TODAS AS FORMAS indiretas nos proibimos de tudo. Horas decisivas corroem o tempo. Retira o direito a pensamentos e incentiva a pressa e a agilidade - quem disse que é completamente benéfico? Não adianta correr quando está tudo perdido. Mas parar e começar de novo a partir desse ponto é o principal meio de fuga. Não uma fuga para sumir. Uma fuga para crescer.

Tic-tac. Você perde o controle. Não percebe que amar as pessoas ao seu redor é o que te faz realmente bem. Você para e observa. O relógio gira o ponteiro e o tempo continua passando.

Tic-tac. Você percebe que está perdendo. Corre para olhar pela janela. Todo mundo está indo. O vidro não os permite ouvir você.

Tic-tac. Perdoem por não ter aproveitado enquanto estavam ao meu lado.

Tic-tac. O tempo passou.

Nuances de arrependimento assombra quem sempre lembra o que desperdiçou. Tudo são tons de grafite e preto. O teto são as nuvens, as paredes barro fresco e os sons ecos. Mesmo assim, ainda arrependido.

As horas e dias passam. Será tarde demais? O vidro estraçalhou em milhões de pedaços. O relógio caiu na inexistência. Nada mais sobrou além de memórias e uma decência forçada.

“Perdi tempo demais”.

Tic-tac. Tic… tac. Tic… 

Um texto do jovem escritor paraense Daniel Pantoja

terça-feira, 25 de julho de 2017

Deveria haver reflexão no título



Se um dia eu parecer loucamente determinado é porque cansei de esperar. Eu dei tanta brecha pra pessoas que eu não devia confiar, amei tanto e senti pouco de volta. 
Que vida é essa em que eu só me ferro? Vai chegar o tempo em que isso acaba? 
Deus, olha aqui para mim.
O café está tão quente que os dedos queimam na xícara amarela. Eu queria um daqueles cafés que parecem uma obra de arte para alegrar meu dia, esquecer a saudade e pegar a energia da minha parceira de vida cafeína. Esse deve ser mais um dia de merda em que terei de sorrir e ser amigável, quando queria continuar na escuridão do meu quarto com minha maratona de série. 
Será que tem de ser tão ruim assim?
Deus, está olhando para mim?
Tic-tac… Quando foi que passei a exigir demais? 
“Coloca isso para a viagem, por favor”. 
Sempre tive a mania de cobrar muito e fazer pouco. Será que é a síndrome da não aceitação da vida adulta?
Ah, cara! Tenho mais de vinte!
Será que curtir vai me dar algum prazer? Ou “Fique em casa, assim não corre o risco de tomar um tiro na cara” é a melhor opção? Ô mãe, eu te amo. 
Agora me dei conta do tempo que passou tão depressa. Se eu tivesse percebido antes, teria feito anos se tornarem histórias e não apenas o tempo que passou e eu nem soube aproveitar.


Um texto do jovem escritor paraense Daniel Pantoja

terça-feira, 20 de junho de 2017

A Canção de Ninar do Incendiário



Quando eu era criança ouvia o que chamavam de canções para dormir. Eu sentava por horas e ouvia as vozes ao redor da fogueira.

“Pequeno incendiário
Não fique parado diante da chama
Ela levará suas cinzas com o vento.
Não se aproxime das brasas
Elas podem marcar tanto quanto as pessoas que passam e ainda passarão na sua vida…”


Eu corria em volta da fogueira todo dia. O fogo era inexplicavelmente atrativo. Se não doesse tanto chegar perto dele, o tocaria para sempre.

A moça cantava - parece que todo mundo podia cantar o que quisesse - olhando-me com olhos brilhantes:

“Tudo o que você tem é o fogo
Porque todo o plano não existe mais.
O que amava agora está destruído
Tudo é apenas assombração.
Você não é mais uma criança
Sabe que todos travamos batalhas;
Não queira terminar a sua com o que tanto ama”.

Foi quando pisei em destroços quentes. Eu vi minha casa em chamas. O que eu sempre amei estava destruindo o que eu pretendia amar sempre. Me peguei dividido. Devastado; sentia o peso de quilos e quilos de terra sobre meu corpo. Carreguei minha dor e deixei em um lugar seguro. Fingi ser forte para seguir em frente, mas morri muito mais vezes que desejava.

“Quando eu tinha menos idade era um completo idiota
Pus gasolina em minhas roupas.
Deitei e aguardei os sonhos
E a vela no chão correu para mim.
Sua paixão é sua sina
E sua sina te consome quando descontrola.
‘Tudo o que você tem é o fogo’
E tudo com o fogo levará ao fim,
Como paixão sem limites
Nunca sem consequências”.


Faz tempo que não me aproximo do fogo. Faz tempo que deixei de ser o incendiário que acabou com tudo o que amava por paixão. O desejo de tudo me consumiu.

As roupas caem no chão e meus pés afundam na neve. Cantarolo na direção do lago quase congelado e em seguida as palavras saem:

“O perdão nunca é suficiente quando as marcas são permanentes.
Tornar-se o oposto do que amava não é se adaptar às mudanças.
O sangue esfria em dias assim, longe da fogueira,
então as cicatrizes congelam.
Ouço as vozes nos ecos do vento gelado:
‘São marcas de agora e de sempre
Nunca reparadas
Respirar é a única saída
Você, pelo tanto que se deixou influenciar por desejo, nunca vai se perdoar ”.


Um texto do jovem escritor paraense Daniel Pantoja

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